Blog do curso de extensão 'Leituras Filosóficas' promovido pelo Departamento de Filosofia da UFMT.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Curso de Extensão
LEITURAS FILOSÓFICAS A DESUMANIZAÇÃO DA ARTE (ORTEGA Y GASSET)
O curso 'Leituras Filosóficas' tem como objetivo propiciar orientações básicas para uma leitura sistemática de textos filosóficos clássicos e contemporâneos. Nesta quinta edição estudaremos a obra A Desumanização da Arte de José Ortega y Gasset. Antes de cada reunião é imprescindível a leitura prévia dos capítulos indicados.
Cronograma: toda quarta, de 27 de novembro a 11 de dezembro
Horário: 17:30 às 18:45
Local: Sala 9, ICHS/UFMT
N° de vagas: 20
Público: comunidade acadêmica da UFMT e demais interessados
Carga horária: 6h (presenciais e de estudos individuais)
Professores: Sara Pozzer e Rodrigo Marcos
Inscrição (gratuita): Depto de Filosofia - 3915-8479
Blog do curso: leiturasfilosoficasufmt.blogspot.com
LEITURA DE “A
DESUMANIZAÇÃO DA ARTE”, ORTEGA Y GASSET
por Raphael dos Santos
ADesumanização
da arte refere-se a uma compilação de ensaios que Ortega y Gasset (1883 - 1955) escreveu
para jornais analisando a transição da arte do século XIX para a arte do século
XX. No século XX, a nova arte é impopular, o problema para ele era estético e
amparado por um dado social, que é justamente a impopularidade da nova arte.
Temos então um contraste entre a arte
dos séculos XIX e XX.
Século XIX
Século XX
Exemplos
Romantismo
Cubismo
Teatro: Pirandello
Naturalismo
Dadaísmo
Poesia: Mallarmé
Realismo
Futurismo
Pintura: Cubismo e Dadaísmo
Musica Tonal
Musica Atonal
Cinema: Caligarismo e Expressionismo
Ortega ressalta que toda arte jovem
nasce impopular e torna-se popular com o tempo, tanto que para comprovar suas
palavras, o Cubismo e Surrealismo hoje fazem parte do universo popular da arte,
ou de um universo Cult, embora por muito tempo tenham sido renegadas como arte.
A exceção a esta regra foi o Romantismo, que por ser mais palatável ao gosto
popular, conquistou espaço com certa rapidez.
O fato é que toda arte agrada a uns
e “desagrada” a muitos. O problema levantado por Ortega gira em torno do dado de
que a arte contemporânea permaneceu impopular por muitos anos, ela não teve
muita aceitação e até hoje algumas vertentes são vistas com “desagrado”. Por
qual motivo?
Ortega vai dizer que a nova arte não
é para todo mundo, como era o caso da arte romântica. Temos assim, uma arte
dirigida para um público bem específico e distinto, e digamos assim,
privilegiado. Neste ponto, ele separa o público em duas classes: os que
entendem a nova arte e os que não a entendem. Quem entende sente-se superior,
quem não entende fica como que humilhado ante sua falta de “senso artístico”,
como se necessitasse de um aparato cultural para entendê-la, uma base que lhe
foi negada. Há aqui a necessidade de diferenciar o que é popular do que é
impopular. Segundo Ortega, “o estilo que inova demora certo tempo para
conquistar a popularidade, não é popular, mas tampouco é impopular”(ORTEGA Y
GASSET, 2008, p.21). Por este prisma, a arte sempre divide o publico em duas
classes, mas nem por isso torna a arte de todo impopular, no caso da nova arte
do século XX, ela não agrada ao publico que entende de arte e muito menos o
publico que não entende. A nova arte é inteligível para estas duas classes de
público, inteligível para quase todo mundo. Essa nova arte “é impopular por essência;
mais ainda, é antipopular. Uma obra qualquer por ela criada produz no público,
automaticamente, um curioso efeito sociológico.” (idem) A nova arte também divide o público em duas classes, mas não
mais entre os que a entendem e os que não a entendem, mas em uma minoria que
lhe é favorável e o resto da massa.
Por que isso ocorre?
O viajante sobre o mar de névoa (1818), Caspar David Friedrich
Segundo Ortega, para a maioria das
pessoas, o prazer estético acontece quando o observador sente a presença do
humano na obra, quando ocorre uma identificação entre quem observa e o que está
na obra.
A resposta não
oferece dúvidas: um drama agrada à pessoa quando esta conseguiu interessar-se
pelos destinos humanos que lhe são propostos. Os amores, ódios, dores, alegrias
das personagens comovem o seu coração: participa deles, como se fossem casos
reais da vida. E diz que é “boa” a obra quando esta consegue produzir a
quantidade de ilusão necessária para que as personagens imaginativas valham
como pessoas vivas. [...] Na pintura só lhe atrairão os quadros onde a pessoas
encontre figuras de varões e fêmeas com quem, em certo sentido, fosse
interessante viver. Um quadro de paisagem lhe parecerá “bonito” quando a
paisagem real que ele representa mereça, por sua amenidade ou patetismo, ser
visitada em uma excursão.
(ORTEGA
Y GASSET, 2008, p.25-26)
O elemento humano que promove esta
identificação, toca o observador como se fossem casos reais da vida. É isto que
te leva a chorar quando vê determinado filme ou lê determinado livro. É por
este fato que o Romantismo conquistou o público logo de cara, porque foi feito
para o grande público não como uma arte abstrata, mas como uma reprodução da
vida.
Então, temos o humano representado na
obra, servindo como o elemento estético que proporciona a apreciação. Quando você
retira isso, o observador fica desorientado e não sabe o que fazer. Não ocorre
a identificação.
Convém aqui, expor a analise de Ortega
sobre o sucesso do Romantismo e do Naturalismo, onde ele faz uma analogia entre
observar uma obra de arte e observar um jardim através de uma janela, presente
na pagina 27 de A desumanização da arte.
Através dessa analogia ele tenta demonstrar que deve haver uma sensibilidade
estética para se observar uma obra de arte. Quando olhamos um jardim através de
uma janela, não percebemos o vidro, mas se ajustarmos a visão para que ela
detenha-se no vidro, o jardim entra em desfoque. Para ele, “a maioria das
pessoas é incapaz de acomodar sua atenção no vidro e transparência que é a obra
de arte: em vez disso, passa através dela sem fixar-se e vai lançar-se
apaixonadamente na realidade humana que está aludida na obra.” (ORTEGA Y
GASSET, 2008, p.28). O observador comum, por assim dizer, quando olha uma obra,
já visa a busca do elemento humano, ele procura uma identificação. Se não tem o
elemento humano, o que ele enxerga é “apenas transparências, puras
virtualidades.” (idem).
E assim, Ortega afirma que toda arte do
século XIX foi realista, e nisso estaria a raiz do Romantismo e Naturalismo, e
consequentemente, o que impulsionou seu rápido sucesso, e vai opinar que isso é
só “parcialmente obras de arte,” (idem)
para apreciá-la não é necessário uma sensibilidade artística apurada, basta que
ocorra a identificação.
O sucesso das obras realistas reside no
fato que não eram tidas como arte abstrata, o que leva Ortega y Gasset a
afirmar que em todas as épocas existiram dois tipos diferentes de arte: uma
para a minoria, que tende para a abstração, e uma para a maioria, que é sempre
realista.
Isso não ocorre com a arte contemporânea,
pois se configura em uma arte feita somente para os próprios artistas, e não
para o publico. A arte passa a ser apenas um objeto artístico. Quanto mais se
retira o elemento humano da obra, resta somente o núcleo artístico,
possibilitando que seja entendida somente por artistas, como por exemplo,
Picasso, que fazia seus quadros para outros artistas observarem e não para o
público, como mostrado no filme Modigliani,
de 2004, dirigido por Mick Davis – partindo é claro do pressuposto de que o
filme retrata a vida dos artistas com certa fidelidade. Embora Picasso e outros
artistas da época abrissem exposições ao público, suas obras eram feitas em
vista de competir com outras escolas, sendo assim, a opinião do público não era
o que mais contava, e sim a inovação artística; e o que podia amparar e fundamentar
o que era uma inovação em termos de arte só podiam ser outros artistas ou
financiadores.
Guernica (1937), Pablo Picasso
É por isso que Ortega y Gasset fala de
uma “arte artística”, onde só o que importa para o artista é o prazer estético
e sua realização pessoal.
Isso é o que vai caracterizar a nova
arte. Trata-se de uma arte estilizada, o real é deformado em busca de
inovações, não sendo necessário a presença do humano, e temos assim uma arte
desumanizada, para ela não se torna mais necessário a representação do humano.
E é nesse ponto que creio que a fotografia e o cinema tem sua parcela de culpa
no processo de desumanização da arte.
Podemos colocar a questão da seguinte
maneira: para a arte tradicional há a representação do humano e a continuação
do real da vida, nisso residia o fazer artístico do artista. Com isso estou
querendo dizer que a arte sempre foi, de alguma forma, representação da vida.
Se voltarmos nossos olhos para o passado, o desenrolar da obra de arte, desde o
Renascimento, sempre representou uma forma de captar a realidade com fidelidade,
mesmo que a obra abordasse um tema fantasioso – o que foi muito comum no
Renascimento –, havia elementos que representavam com fidelidade a natureza ou
o humano; mesmo nos quadros de Monet ou Van Gogh, no Impressionismo e
Pós-Impressionismo, que inovaram em suas técnicas de pintura, temos ainda a
presença do humano, embora já haja ali uma tendência para a desumanização. No
meio disso surge a fotografia, permitindo que se capte com máxima fidelidade a
realidade, e logo depois temos o advento do cinema.
O que isso promove?
Bom, se o trabalho do artista – podemos
dizer para efeito de estudo – era captar a realidade, com o surgimento da
fotografia, seu trabalho fica, por assim dizer, prejudicado. Se existe um
instrumento que capta a realidade com precisão, o que sobra para se fazer com o
meu pincel?
Qual a característica da desumanização?
Com a desumanização, a arte tira o foco
da objetividade – uma vez que a fotografia ganha esse papel –, e joga esse foco
para a subjetividade.
E o que encontramos na subjetividade?
A distorção da realidade.
Entendemos que o expressionismo expressa
as emoções humanas, como no quadro O
Grito de Edvard Munch. Os filmes do período conhecido como Expressionismo
Alemão seguem a mesma linha.
O Grito (1893) Edvard Munch
O cinema expressionista alemão “se valia
de maquiagens carregadas, efeitos de luz e sombra, sempre numa tentativa de
causar um certo tipo de mal estar, na tentativa de traduzir o estado psicológico retratado na cena, os
filmes giravam sempre em torno da insanidade e traição.” (BERGAN, 2010, p.26)
Ou seja, a narrativa percorria pela via subjetiva; quando você tenta passar
isso na obra, a tendência é a desumanização, pois o que acontece na
subjetividade é entendido como a distorção da realidade.
Um bom exemplo disto é O gabinete do Doutor Caligari de 1920,
dirigido por Robert Wiene. Todo o filme foi feito com técnicas para se manter
uma atmosfera de pesadelo. Onde ocorre o pesadelo? Na subjetividade.
É esse foco na subjetividade que vai
impulsionar logo depois o Surrealismo.
Tanto no Expressionismo quanto no Cubismo
e Surrealismo, encontramos essa distorção da realidade, no caso do Cubismo o
ser humano é representado de forma fragmentada, como se mostrasse pessoas
cortadas, através de figuras geométricas. Estas vertentes representam a
radicalização da arte, onde aparecem as paisagens interiores e subjetivas do
artista. E é essa virada estética, esta mudança de foco para a subjetividade,
que favorece a desumanização, deixando o público em uma posição desconfortável,
em dificuldade para compreendê-la.
Na arte, toda
forma de repetição é nula. Cada estilo que aparece na história da arte pode
criar certo numero de formas diferentes dentro de um tipo genérico. Porém,
chega um dia em que a magnífica mina se esgota. Isso se passou, por exemplo,
com o romance e o teatro-naturalista. É um erro ingênuo crer que a esterilidade
atual de ambos os gêneros se deve à ausência de talentos pessoais. O que
aconteceu é que se esgotaram as combinações possíveis dentro deles. Por essa
razão, deve-se julgar venturoso que coincida com esse esgotamento a emergência
de uma nova sensibilidade, capaz de denunciar novas minas intactas.
(ORTEGA
Y GASSET, 2008, p.30-31)
O esgotamento desta variação no que
já se tinha estabelecido dentro do contexto artístico, despertou na nova
geração de artistas uma repulsa à arte tradicional, gerando uma revolta contra
a própria arte e seus padrões estabelecidos. Essa aversão ao tradicional pode
ser percebida de forma clara tanto no Manifesto
do Surrealismo escrito por André Breton em 1924, quanto no Manifesto Dadaísta escrito em 1918 por
Tristan Tzara. “A nova arte é um fato universal” (ORTEGA Y GASSET, 2008 P.30) e
criou-se uma situação inalterável, de modo que não há a possibilidade de uma
volta à tradição ou uma criação artística dentro da tradição.
BIBLIOGRAFIA
BERGAN, Ronald, ...Ismos para entender o cinema. São Paulo, Globo, 2010
ORTEGA Y GASSET, José, A Desumanização da arte. São Paulo, Cortez, 2008
PARA SABER MAIS
André Breton: Manifesto do Surrealismo
Tristan Tzara: Manifesto Dadaísta
O gabinete do Doutor Caligari 1920, Robert Wiene
Modigliani:
Paixão pela vida,
2004, Mick Davis
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Curso
de Extensão
LEITURAS
FILOSÓFICAS:
SOBRE VERDADE E MENTIRA
NO SENTIDO EXTRAMORAL
(NIETZSCHE)
O curso
'Leituras Filosóficas' tem como objetivo propiciar orientações básicas para uma
leitura sistemática de textos filosóficos clássicos e contemporâneos. Nesta quarta
edição estudaremos, na íntegra, o texto 'Sobre Verdade e Mentira no sentido
extramoral', de Friedrich Nietzsche. Antes
de cada reunião é imprescindível leitura prévia dos capítulos indicados.
Cronograma:
toda quarta, de 31 de julho a 14 de agosto
Horário:
17:30 às 18:45h
Local: Sala 52,
ICHS/UFMT
Nº de vagas:
20
Público:
comunidade acadêmica da UFMT e demais interessados
Carga horária:
6h (presenciais e de
estudos individuais)
Professores:
Bernardo Alonso e Rodrigo Marcos
Inscrição
(gratuita): Depto de Filosofia, terça e quinta das
19 às 21h.
Informações:
Depto de Filosofia 3615-8479 (rodrigomarcosdejesus@yahoo.com.br)
terça-feira, 19 de março de 2013
Considerações
e Formulações Acerca da Obra:
Extensão ou
Comunicação? de
Paulo Freire
2°
Parte
Sobre
o Despertar da Consciência Critica nos
Extensionistas
No texto de
Freire encontramos um alerta: o objetivo inicial de um extensionista é
substituir os conhecimentos do homem do campo pelos seus. Isso é uma agressão e
ocorre pelo fato de não haver uma consciência
critica por parte dos extensionistas.
Vale ressaltar que o extensionista, em geral, está
vinculado a um órgão político; logo, os objetivos do agrônomo representam os
objetivos da instituição, naturalmente, representam também os objetivos e
interesses do governo.
O extensionista tem o trabalho de levar novas técnicas e
conhecimentos que objetivam melhorar a produção, num sentido puramente
econômico; técnicas que avancem em direção ao aumento da produção e, consequentemente,
ao aumento de capital. Percebe-se por esse viés, que desde o inicio há um fundo
de interesse político.
Mas procurando se deter na questão do trabalho do extensionista,
entendemos que o que ele faz é invadir uma realidade consolidada, tentando
impor uma nova visão, ou seja, duas realidades entram em choque e atuam
simultaneamente, o problema que surge ai, é que elas vão tentar sobrepor-se
constantemente por falta de dialogo.
O trabalho do extensionista visa substituir a forma
empírica de tratar a terra pelas técnicas e ciência aplicada, “a extensão
agrícola aparece então, como um campo especializado, de cujo quefazer se espera o sucesso destas
mudanças.” (Freire, p.25) Nada disso resulta em libertação.
Não se despreza o conhecimento empírico, pois o empírico
é aquele que tem a pratica, o extensionista é aquele que tem a técnica.
Portanto, através do dialogo, os dois formarão aquilo que a filosofia freireana
busca: a conciliação entre teoria e pratica. Por este motivo, não se pode
desprezar o conhecimento empírico ao levar ou estender os novos conhecimentos
para essa outra realidade.
A critica de Freire está calcada no fato do agrônomo
adentrar essa outra realidade, com técnicas prontas, e tentar aplicá-las sem o
prévio conhecimento da realidade em questão. O despertar da consciência critica no agrônomo pode, em
parte, evitar isso. Ele deve conhecer, antes de atuar, a realidade do homem
rural; não em termos gerais, mas conhecer especificamente a realidade onde
pretende atuar. Ele reforma sua própria visão de mundo a partir do dialogo com
o homem do campo. Dialogando ele conhece e entende a realidade rural; ele não afirma
mais: É assim que se faz!, ele
pergunta: Como é que se faz?.
Invasão
Cultural
Nota-se que estamos novamente tratando da situação opressor-oprimido. O agrônomo sai de seu
espaço histórico-cultural, esse espaço contem seus valores, sua visão de mundo;
ou seja, seus conhecimentos de mundo ocorrem sob esses valores que ele vai
tentar sobrepor sobre os valores do homem do campo, que por sua vez estão
inseridos em outro contexto histórico-cultural. Dessa forma o agrônomo reduz o
homem rural a objetos de sua ação, em uma relação autoritária, situando os dois
em pólos antagônicos.
O agrônomo invade a
cultura do homem rural por meio de uma ação antidialógica, toma o homem do
campo por objeto, o camponês tem a ilusão de que atua junto com o agrônomo
quando na verdade seus valores estão sendo apagados e sua ação está sofrendo um
processo de domesticação.
O
primeiro atua, os segundos tem a ilusão de que atuam na atuação do primeiro;
este diz a palavra; os segundos, proibidos de dizer a sua, escutam a palavra do
primeiro, o invasor pensa, na melhor das hipóteses, sobre os segundos, jamais
com eles; estes são pensados por aqueles. O invasor prescreve, os invadidos são
pacientes da prescrição. (Freire, p.41-42)
Freire
afirma que toda invasão cultural pressupõe a conquista pelo messianismo de quem
invade, como a invasão é um ato de conquista, necessita de mais conquista para
se manter. (Freire, p.42)
O que o agrônomo faz ao invadir a cultura rural?
Ele descaracteriza essa cultura. Como ocorre essa
descaracterização?
O invasor possui instrumentos a seu favor, a
descaracterização, a substituição de valores, ocorre por meio da persuasão; o
invasor persuade fazendo uso de tais instrumentos; estes instrumentos são:
propagandas, slogans, mitos, manipulação. Tomado como recipiente, o homem rural
é “enchido” pelos valores da cultura invasora através do uso de tais
ferramentas.
Por
meio da manipulação, o invasor desperta no invadido a sensação de que estão
atuando juntos, quando na verdade o povo rural está sendo massificado.
Só se pode reverter ou evitar este quadro por meio do dialogo.
Freire ressalta, para não cair em relativizações e
generalizações, que reconhece que nem todos os extensionistas promovem a
invasão cultural, porém não é possível ignorarmos o sentido ostensivo que o
termo extensão assume.
Esse sentido é aquele que foge do dialogo, que se afasta
do humanismo, da transformação conjunta da realidade. Em sua própria ignorância, o invasor pensará que o que
faz é um quefazer educativo;
domestica sem saber, manipulam e persuadem achando que educam, quando na
verdade estão atuando no erro, eles tem a falsa sensação de que estão
“libertando” o homem rural. Ao se desconhecer a cultura da população a quem se
destina, a extensão é antidialógica e manipuladora.
Para se ter êxito, a invasão cultural precisa convencer
os invadidos de que eles são inferiores, assim passam a ver os invasores como
superiores, adquirem seus valores e seus hábitos, sua maneira de produzir de
pensar. Posto deste modo, são submetidos a condições concretas de opressão e
são incapazes de perceber a própria sujeição e se acomodam nela.Vendo
o opressor como autoridade, ele se torna dócil e passivo, propicio a receber os
conhecimentos do opressor como verdade, pois o opressor, através do messianismo
e da propaganda, persuade o oprimido de que o que ele faz é errado.
Por que insistem na
antidialogicidade?
A desculpa dos próprios agrônomos é que por meio da
dialogicidade as coisas acontecem de forma lenta e não se concilia à “premência
do país no que diz respeito ao estimulo à produtividade”. (Freire, p.45)
Quanto a isto, é interessante ressaltarmos um
trecho da obra em questão em que Freire expõe argumentos coletados em
seminários com os próprios extensionistas, em que eles apresentam uma “defesa”
da invasão cultural:
Para grande parte, senão a maior parte dos
agrônomos com quem temos participado em seminários em torno dos pontos de vista
que estamos desenvolvendo neste estudo, a “dialogicidade é inviável”. “E o é na
medida em que seus resultados são lentos, duvidosos, demorados”. “Sua lentidão
– dizem ou outros – apesar dos resultados que pudesse produzir, não se concilia
com a premência do país no que diz respeito
ao estimulo à produtividade”.
“Deste modo – afirmam enfaticamente – não se justifica essa perda de tempo,
entre dialogicidade e antidialogicidade fiquemos com essa ultima, já que é mais
rápida”.
Há, inclusive, aqueles que, movidos
pela urgência do tempo, dizem que “é preciso que se façam ‘depósitos’ de
conhecimentos técnicos nos camponeses, já que assim, mais rapidamente, serão
capazes de substituir seus conhecimentos empíricos pelas técnicas apropriadas”.
“Há um problema angustiante que nos
desafia – declaram outros -, que é o aumento da produção; como, então, perder
um tempo tão grande, procurando adequar nossa ação às condições culturais dos
camponeses? Como perder tanto tempo dialogando com eles?”
“Há um ponto mais sério ainda –
sentenciam outros – Como dialogar em torno de assuntos técnicos? Como dialogar
com os camponeses sobre um coisa que
eles ainda não conhecem?” (Freire, p 45)
Apesar de Freire usar este exemplo concreto, podemos,
após refletir um pouco, notar que a invasão
cultural é um termo abrangente. Essa situação ocorre sempre que o invasor
tenta sobrepor sua visão de mundo sobre a realidade do invadido. E para que uma
invasão seja eficaz, ela necessita de antidialogicidade, necessita que o homem
seja “coisificado”, que seja tomado como objeto, como um ser passivo, um jarro
vazio que pode ser “enchido” pelos novos conhecimentos.
Freire nos mostra que o problema não é nem a situação opressor-oprimido em si, mas sim a sua
manutenção. Manutenção que por sua vez ocorre pela própria ignorância dos
opressores, e na insistência de continuarem nessa ignorância. A opinião dos
extensionistas, que estão aqui no papel de opressores, é que a dialogicidade é
perda de tempo, porque eles precisam cumprir metas, precisam de resultados
rápidos. Voltamos então àquela situação inicial, que o extensionista está
vinculado a um órgão político, representando os interesses do governo. Se
analisarmos sob essa luz, o extensionista é também um oprimido, o que ele faz
também é mecânico. Em sua relação com os superiores também não há dialogo, eles
também são conquistados pela sloganização e propaganda, eles também são
persuadidos. Seu objetivo logo se pauta na reprodução disso sobre o homem
rural, que por sua vez é oprimido duplamente, sendo assim o objetivo dos
extensionistas, depende da capacidade de adaptação e reprodução por parte do
camponês.
Porém,
o mais interessante de se notar é que não saímos da situação opressor-oprimido. Não é absurdo
afirmarmos que toda obra de Freire tem como ponto central a Pedagogia do
Oprimido. “Do” oprimido, esse “do” nos mostra o ponto de onde ele olha.
Eu digo que o conceito opressor-oprimido
centra toda a filosofia de Freire, porque esse conceito é a matriz dos outros
conceitos; do dialogo entre opressor e oprimido surge a consciência critica que auxiliada pela práxis nos leva em direção à busca do ser mais.
O
conceito de opressor-oprimido é atual
porque é uma situação que sempre irá surgir, e se é algo que sempre vai surgir,
o dialogo deve ser algo constante. É só pelo dialogo, apoiado pela consciência critica que se tenta evitar
a repetição desta situação.
------------------------ Freire,
P; Extensão ou Comunicação?. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1980. 93p.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Considerações
e Formulações Acerca da Obra:
Extensão
ou Comunicação? de Paulo Freire
1°
Parte
Sobre
o Termo Extensão
Em Extensão ou
Comunicação?, Freire nos apresenta um exemplo concreto de uma situação opressor-oprimido. Ao longo deste
artigo, veremos que essa é uma situação que envolve quase, senão todas as
relações humanas. Em sua obra mais conhecida A Pedagogia do Oprimido, Freire expôs sua Teoria Dialógica da Ação, e foi onde nos mostrou, de forma mais
objetiva, como se dá essa situação, denunciou a educação bancária e propôs ideias que podem ajudar o homem a sair
dessa situação, de modo que os pólos opressor-oprimido
não apenas se invertam, a tentativa visa erradicar essa relação antagônica.
Como foi dito acima, em Extensão ou
Comunicação?, Freire dá o exemplo concreto desta situação ao tratar sobre o
trabalho do agrônomo-educador, também chamado extensionista, e enfatiza mais
uma vez que, só se sai dessa situação através de um dialogo problematizante,
dialogo este, que tem o intuito de despertar uma consciência critica da realidade.
Por
que Debater Sobre a Extensão?
O trabalho do
agrônomo-educador, que se dá no domínio do humano, envolve um problema
filosófico que não pode ser desconhecido nem tampouco minimizado.
A reflexão filosófica se impõe neste, como
em outros casos. Não é possível eludí-la, já que o que a Extensão pretende,
basicamente, é substituir uma forma de conhecimento por outra. E basta que
estejam em jogo formas de conhecimento para que não se possa deixar de lado uma
reflexão filosófica. (Freire, p 26/27)
No termo extensão,
encontramos o sentido de levar algo à,
estender algo, nessa concepção, o ato
de educar adquire uma conotação mecanicista, nesse sentido o trabalho do
extensionista rural é uma educação-bancaria,
aquela que vê o educando como uma jarro vazio onde se pode depositar os
conhecimentos de outrem.
O termo extensão
não corresponde a um quefazer
libertador, que é o dever do extensionista. Pela sua significação de estender
algo, o termo nega o papel transformador da realidade. Quando explanamos o
conceito do termo extensão, torna-se contraditório dizer que o trabalho do
extensionista é persuadir a população rural a aceitar sua propaganda. Se um
extensionista chega à uma população rural, tentando persuadir os camponeses a
aceitarem a sua propaganda, o que o extensionista faz é negar que o homem rural
tem a capacidade de formular conhecimentos próprios.
Esta obra de Freire não se trata apenas de uma crítica ao
trabalho do agrônomo educador, trata-se de uma tentativa de despertar uma consciência critica nos estensionistas,
para que possam atuar de forma eficaz, despertando também a consciência critica do homem rural,
partindo de sua própria realidade.
Freire esta expondo uma contradição: persuadir – educar. Não é possível aceitar que a imposição de uma
propaganda, de uma visão de mundo por meio da persuasão seja uma forma de
educar. Educação só é verdadeira quando encarna a busca do ser mais. A persuasão nega a formação de um conhecimento autentico.
Persuadir o camponês a aceitar a propaganda de seus
aparatos e técnicas é uma forma de domesticação, a propaganda é um instrumento
de domesticação, independente de seu conteúdo, a persuasão irá tomar o homem
rural como objeto da propaganda.
O termo extensão sugere
algo dinâmico, mas para Freire o que temos aqui é um equivoco; ela propõe uma
dinâmica, mas se o que ela faz é somente estender algo, aquele que sofreu a
extensão ira receber apenas um conteúdo estático, nada de dinâmico. Essa forma
estática surge da ingenuidade dos homens acharem que o conhecimento do mundo é
algo que possa ser transferido, estendido ou depositado.
Ora, o mundo está em constante transformação, só por este
fato, o conhecimento dele não pode ser algo estático e imutável, igual para
todos, “a confrontação com o mundo é a fonte verdadeira do conhecimento.”
(Freire, p.27)
Pelo mundo ser algo sempre em transformação, isso requer, naturalmente, uma
busca constante.
O termo extensão
separa o homem do mundo. Formula-se uma visao de realidade e tenta-se a
imposição dessa visão sobre o homem. Um grande erro, pois não se separa homem-mundo, não existe o mundo sem o
homem e vice-versa, “o homem se encontra marcado pelos resultados de sua
própria ação.” (Freire, p.28)
O que a extensão faz,
é mostrar uma presença nova naquela realidade, a presença dos conteúdos
estendidos. Ela toma o homem como objeto, transformado em objeto, o homem não
conhece, ele só conhece quando passa a atuar como o sujeito que indaga, o homem
precisa entender que atua no mundo, e é esta atuação que transforma a sua
realidade.
O que Freire tenta, é tirar a extensão do campo da doxa,
nesse sentido ele entende que a extensão
traz um conhecimento que é mostrado para o homem rural. Desta forma o homem
capta a presença das coisas, exercendo sobre elas a mera opinião. Apenas por
esse captar, não é possível um aprofundamento do conhecimento, adentrar o
conhecimento é ter uma percepção critica sobre as coisas
[i]Freire,
P; Extensão ou Comunicação?. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1980. 93p.
Nesta quarta, dia 20, às 17:30h, na sala 52 do
ICHS começaremos o Curso de Extensão
Leituras Filosóficas: “Extensão ou Comunicação?” (Paulo Freire).
A leitura prévia do texto é indispensável. Por isso, indicamos que tod@s
leiam o capítulo I da obra “Extensão ou Comunicação?”. O texto está disponível
no xerox da Tetê e também segue a versão em pdf.
Boa leitura e até quarta...
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Curso
de Extensão
LEITURAS
FILOSÓFICAS:
EXTENSÃO OU
COMUNICAÇÃO?
(PAULO
FREIRE)
O curso 'Leituras
Filosóficas' tem como objetivo propiciar orientações básicas para uma leitura
sistemática de textos filosóficos clássicos e contemporâneos. Nesta edição estudaremos,
na íntegra, o livro 'Extensão ou Comunicação?', de Paulo Freire.
Antes de cada reunião é imprescindível leitura prévia dos textos
indicados.
Cronograma:
toda quarta-feira, de 20 de fevereiro a 13 de março
Horário:
17:30 às 19h
Local: Sala 52,
ICHS/UFMT
Nº de vagas:
15
Público:
comunidade acadêmica da UFMT e demais interessados
Carga horária:
6h
Professor:
Rodrigo Marcos de Jesus
Inscrição
(gratuita): de 7/2 a 15/2, Departamento de
Filosofia UFMT, de segunda a sexta 9 às 11h e de 14 às 17h ou terças e quintas
das 19 às 21h.
Informações:
Departamento de Filosofia UFMT (3615-8479)