* Pressupostos (p. 394/340[1]): 1)Conceito de Filosofia: “tem a tarefa de
captar, pensando e compreendendo, a verdade”, não uma verdade finita e mutável,
mas uma verdade absoluta que se expressa na história. 2) História da Filosofia: deve ocupar-se
com a própria filosofia, “[...] a história da filosofia [não] foi excogitada
arbitrariamente por indivíduos singulares de maneiras diferentes umas das
outras, mas há um nexo essencial no movimento do espírito pensante, onde domina
a razão”.
* Definição
de filosofia:
“A
filosofia é a ciência objetiva da verdade, é a ciência da sua necessidade: é
conhecer por conceitos, não é opinar nem deduzir uma opinião de outra” (p.
390/336).
Sendo assim: 1) Filosofia
(ideia universal, objetiva) # Opinião (representação subjetiva) 2) História da Filosofia # Coleção de
“opiniões filosóficas” acompanhada da investigação de como se formaram e se
desenvolveram
“Uma história assim
redigida, que não passe de pura enumeração de opiniões, não constitui senão um
objeto de inútil curiosidade ou, quando muito, de investigação erudita, uma vez
que a erudição consiste em saber quantidade de coisas inúteis desprovidas de
interesse intrínseco, a não ser o interesse de serem conhecidas. Defendemos,
por outro lado, que não é destituído de toda utilidade o aplicar-se a conhecer
as opiniões e pensamentos alheios, na medida em que este exercício estimula a
energia da mente, sugere alguma boa ideia, e do choque das várias opiniões faz nascer
uma nova opinião: pois que a ciência consistiria precisamente neste evoluir
duma opinião para outra” (p. 390/336).
* Considera-se a diversidade de filosofias
como prova da impossibilidade da verdade e da própria filosofia. Para Hegel, entretanto,
esse modo de pensar é abstrato por contrapor de forma simples verdade e erro.
Pois:
a)as
diversas filosofias têm algo em comum: são filosofias
b)a
diversidade de filosofias é necessária e essencial à própria filosofia
* A filosofia tem como fim a verdade e a verdade
encontra-se na ideia. “[...] a ideia... é o pensamento na sua totalidade e na
sua determinação em si e por si. A ideia é a verdade e unicamente a verdade;
ora, é essencial à natureza da verdade o desenvolver-se e chegar à compreensão
de si própria, e só através do desenvolvimento torna-se aquilo que é” (p.
395/341). A filosofia, assim, deve ser compreendida como o desenvolvimento
do concreto. Mas o que é “desenvolvimento” e o que é “concreto”?
Desenvolvimento:
* Definição: o
desenvolvimento se faz na dialética do ser em si (potência, capacidade,
disposição) e ser por si (atualidade, ato). “Todo o conhecimento e cultura, a
ciência e a própria ação não visam a outro escopo senão a exprimir de si o que
é em si, e deste modo a se converter em objeto para si mesmo” (p. 396/342).
Concreto:
* Definição: 1) o concreto é a unidade dos momentos do
desenvolvimento (o ser em si e ser por si); 2) o concreto é o em si, aquilo que começa o desenvolvimento; 3) o concreto é o produto final do
desenvolvimento. Portanto, o concreto é
simples e diverso ao mesmo tempo, e se relaciona aos momentos dialéticos.
“Esta interna contradição, que é precisamente o que provoca o desenvolvimento,
leva as diferenças à existência” (p. 398/343)
* A filosofia não é abstração vazia. Seu
conteúdo é abstrato apenas na forma, já que a ideia (seu conteúdo próprio) é
essencialmente concreta, pois é a unidade de múltiplas determinações. Para
compreender isso é preciso distinguir:
Pensar
do intelecto/entendimento = pensar abstrato = não união de
uma coisa e o seu diferente (próprio da ciência)
Pensar
da razão = pensar concreto = unidade de determinações
distintas (própria da filosofia)
Comentário:
Para Hegel, a divisão/distinção (operação por excelência do intelecto/entendimento)
é algo abstrato, ou se quisermos, artificial, pois a realidade é uma
totalidade. E essa totalidade só pode
ser apreendida por uma atividade unificadora da razão que articule algo e o seu
contrário.
* Conclusões retiradas por Hegel:
1)A
história da filosofia, assim como a filosofia, é sistema em desenvolvimento. A
filosofia representa a necessidade das determinações da ideia. A história da
filosofia mostra esse desenvolvimento da ideia no tempo, i.e., de forma
empírica num dado lugar e sob determinadas condições políticas.
2)A
sucessão dos sistemas de filosofia na história é igual à sucessão lógica das
determinações conceptuais da ideia, ainda que haja diferenças [Sistema e
História se identificam]
3)O
estudo da história da filosofia é estudo da própria filosofia
Observação fundamental: Hegel, ao falar do
desenvolvimento da filosofia, fala do ponto de vista do espírito universal e
pressupõe uma organização racional do mundo. Cf. os tópicos “O desenvolvimento
das várias filosofias no tempo” e “Aplicação das considerações precedentes à
história da filosofia”
[1] A primeira numeração refere-se à
paginação da do texto de Hegel na coleção Os pensadores do ano 2000, a segunda
numeração refere-se à versão em pdf.
“No pensamento hegeliano, História de
Filosofia e Filosofia da História compenetram-se mutuamente e são explicitação
do objetivo que visa a compreender a realidade presente mediante a realidade
transata. Os acontecimentos históricos, vividos ou pensados, somente adquirem
sentido e explicação quando considerados à luz da ideia para que tendem e de
que são explicitação, — tal é a concepção fundamental que importa ter presente
e que Hegel expôs nas lições de Heidelberga, no ano letivo de 1816-1817, acerca
da História da Filosofia e da Filosofia sistemática e cuja estrutura se
encontra na Enciclopédia das Ciências
Filosóficas (1.a ed., 1817, Heidelberga) e na lição inaugural da Introdução à História da Filosofia. Na
história de um povo, pensava, os acontecimentos e os indivíduos não interessam
o historiador-filosófico senão enquanto explicitam o desenvolvimento político
desse povo, porque «o que sucede a um povo e tem lugar dentro dele tem o seu
significado essencial em relação com o Estado» (Enciclopédia, § 549). Assim, por exemplo, na história de Roma, o
que importa é o destino ou a decadência da grandeza do Império Romano, sendo
este fim o fundamento dos próprios acontecimentos e a razão da importância do
juízo que sobre eles se façam. «Uma história, escreve, sem o dito fim e sem tal
juízo seria apenas um abandonar-se idiota à mera imaginação, e nem sequer seria
um conto de crianças, pois que as crianças também exigem que as narrações
tenham interesse, isto é, um fim que, pelo menos, lhes deixe entrever a relação
dos acontecimentos e das ações com esse fim» (Id., ibid.).
Por isso, se o historiador político não
pode postergar a ideia de Estado, como o juiz não pode postergar a ideia de
Justiça, o historiador-filosófico também não pode postergar as ideias de
Estado, de Razão e de Liberdade, que são as ideias para que tende o ser
profundo da História e que ao mesmo tempo o explicitam.
A História da Filosofia é a expressão
refletida desta concepção. O pensamento não é dado nem se dá imediatamente e de
uma só vez, ou por outras palavras mais adequadas, não é mas devém, sendo
justamente pela consciência das várias formas, fases e períodos por que passa e
se manifesta a sua desenvolução que ele se apreende, conhece e toma consciência
mais plena e perfeita de si.
Assim considerado, o pensamento
filosófico não é de maneira alguma independente e exterior à marcha da
História, mas as suas manifestações, que se apresentam diversas e até antagônicas
no decurso das gerações, propõem o problema da respectiva racionalidade, isto
é, o problema de saber em que medida as diversas e antagônicas filosofias são
racionalmente pensáveis e coerentes no seu advento histórico. Daí, o problema
primário e basilar da História da Filosofia, ou seja o do objeto que lhe é
próprio, pois é em função deste que se hão-de investigar, relacionar e explicar
as manifestações do pensamento filosófico.
Este é um problema que, em geral, os
historiadores das diversas ciências particulares não têm que considerar, porque
o objeto de cada ciência está mais ou menos particularizado e os progressos dos
conhecimentos acerca dele se constituem normalmente por adição sucessiva das
contribuições dos diferentes sábios. Para o historiador da Filosofia, pelo
contrário, o objeto que ele se propõe historiar constitui um problema urgente e
prévio, não só para se orientar como, sobretudo, para afastar do horizonte
histórico-filosófico os conceitos que impedem a visão clara e a marcha segura.
A primeira dificuldade que lhe cumpre
dissipar é o desconcerto que à primeira vista resulta do espetáculo da sucessão
das concepções filosóficas. Todas dizem propor-se e dar a explicação racional
da realidade, mas cada uma arvora a própria concepção como a verdadeira
Filosofia, por antagônica e polarmente oposta que seja às outras. Daí haver
quem seja levado a crer que as diversas manifestações do pensamento filosófico
ao longo do tempo não vão além de uma galeria de opiniões dos «heróis da
razão», sem conexão de umas com as outras e cujos pensamentos morreram com o
passado que os sepultou, perdendo todo e qualquer interesse para o presente. A
primeira tarefa do historiador da Filosofia consiste em remover este ponto de
vista, que priva a História da Filosofia de objeto consistente e racionalmente
pensável. Para se tornar disciplina coerente, a História da Filosofia carece de
um objeto que esteja acima e fora da poeirada dispersiva das opiniões de cada
um, e esse objeto somente pode encontrar-se na própria ideia da Filosofia. Só
ela pode tornar sinfonia a multidão de rapsódias esparsas, distantes e
díspares.
Indo à razão de ser de todas as
manifestações pretéritas do pensamento filosófico, Hegel pensou que elas não
vieram à existência sem causa, e sendo assim não se trata de opiniões
contingentes e conjeturais mas de ideias que devem ter entre si conexão
racional. O que somos, somo-lo pela História, é tópico da filosofia hegeliana,
e consequentemente a razão atual, instruída e consciente dos contrastes das
diversas doutrinas e da respectiva superação por concepções mais compreensivas
e extensivas, não se produziu nem se constituiu instantaneamente, de uma só
vez. Produziu-se ao longo do tempo e desenvolveu-se com a percepção da
multiplicidade das suas formas e incidências, à maneira de um rio que se vai
tornando mais caudaloso à medida que se afasta da nascente e vai recebendo
maior volume de afluentes diversos. Assim considerado, o desenvolvimento do
pensamento filosófico não deve ser visto limitadamente, em relação somente a
dado país ou região, mas universalmente, isto é, em relação à totalidade do
mundo humano. Uma nação pode estacionar, como parece ter acontecido na China,
mas o espírito universal não para nem estaciona, porque o seu viver é o seu
agir. Por isso, o espírito universal, em cada época, por um lado recebe e
assimila a herança científica e filosófica das gerações passadas, e por outro,
desenvolve-a acrescentando-lhe algo que lhe faltava. Donde, a produção
intelectual ter por característica a presencialidade de um mundo cultural
pré-existente, cuja instância é assimilada, acrescentada ou modificada no ato em
que o espírito dela se apossa”.
(obs:
refere-se à introdução de título homônimo ao do livro, e não à obra como um
todo)
Estruturação do texto
1.Tese:
História da Filosofia é a expressão refletida da Razão, isto é, do pensamento
racional que penetra na essência das coisas (da natureza, do espírito, do
Absoluto). §§ 1-8
1.1.História
da Filosofia não é uma sucessão de fatos contingentes, mas a compreensão do seu
significado, do seu nexo racional ao longo do progresso histórico, e está
representada pela série de espíritos nobres, dos “heróis da razão”. §§ 1-2
1.2.Relação
entre a Filosofia e a tradição §§ 3-6
1.2.1 Tudo o que somos, somo-lo por obra histórica:
a filosofia (e a ciência) deve a sua constituição à tradição. §§ 3-4
1.2.2. A tradição é algo vivo e em transformação.
Herança cuja recepção equivale à própria posse da filosofia. § 5
1.2.3. Compreender a filosofia é recebê-la,
desenvolvê-la e elevá-la. A filosofia atual se liga à precedente e é produto
desta. § 6
1.2.4. Conclusão: compreender a relação entre
filosofia e tradição é perceber que o estudo da história da filosofia já nos
inicia na filosofia. § 7
1.3.
A História do Pensamento (da Razão) é a história das manifestações da filosofia
no decorrer da história. § 8
2.
Plano da obra §§ 9-14
2.1.
Questões a serem abordadas:
2.1.1.
A concepção de História da Filosofia:
como conciliar o pensamento (que trata do imutável, do eterno, da verdade) com
a história (que lida com o mutável, o contingente, o erro)? Qual o significado,
o conceito e o escopo da História da Filosofia? [debatido na Parte A]
2.1.2.
O objeto da filosofia e a relação da
filosofia com outros saberes: como distinguir o objeto característico da
filosofia e sua diferença com relação à ciência, à arte e à religião? Que
aspectos da cultura devem ser excluídos de uma História da Filosofia? [debatido
na Parte B]
2.1.3.
Divisão e critérios da História da
Filosofia: Qual a representação geral do quadro histórico da filosofia?
Quais suas divisões e momentos necessários? Quais as suas fontes? [debatido na
Parte C]
O
curso 'Leituras Filosóficas' tem como objetivo propiciar orientações básicas
para uma leitura sistemática de textos filosóficos clássicos e contemporâneos. Nesta
sexta edição estudaremos, na íntegra, o livro 'Introdução à História da
Filosofia', de Georg W. Friedrich Hegel. Antes de cada reunião é imprescindível
leitura prévia dos capítulos indicados.
Cronograma:
toda segunda, de 12 de maio a 2 de junho
Horário:
17:30 às 18:45h
Local:
Sala 9, ICHS/UFMT
Nº de vagas:
20
Público:
comunidade acadêmica da UFMT e demais interessados
Carga horária:
6h
Professor:
Rodrigo Marcos de Jesus
Inscrição (gratuita):
realizada no primeiro dia do curso (dia 12/5), na sala 9.
Informações:
Depto de Filosofia 3615-8479
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
*Ao fim desta postagen encontram-se os links para download e leitura dos manifestos na íntegra e videos das musicas apresentadas no primeiro encontro sobre A Desumanização da Arte de Ortega y Gasset.
ANDRÉ BRETON, MANIFESTO DO SURREALISMO, 1924 (trechos)
Só o que me exalta ainda é uma única palavra, liberdade. Eu a considero
apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem
dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós
herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida.
Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse
mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que
haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que
pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é
bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar (como se
fosse possível enganar-se mais ainda). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se
detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é,
antes, a contingência do bem?
Fica a loucura. “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. Essa ou
a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão
a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes
atos, sua liberdade (o que se vê de sua liberdade) não poderia ser ameaçada.[..]
Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da
imaginação.
O pretexto de civilização e de progresso conseguiu banir do espírito tudo que
se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera; [...] Ao que
parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo
intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual se afetava não querer
saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a fé nestas descobertas
desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano
poderá levar mais longe suas investigações, pois que autorizado a não ter só em
conta as realidades sumárias. Talvez esteja a imaginação a ponto de retomar seus
direitos. Se as profundezas de nosso espírito escondem estranhas forças capazes
de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo
interesse em captá-las, captá-las primeiro, para submetê-las depois, se for o
caso, ao controle de nossa razão. Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para
o sonho. É inadmissível, com efeito, que esta parte considerável da atividade
psíquica não tenha recebido a atenção devida.
Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra
SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que
antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a de uma vez por todas.
SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir,
seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o
funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo
controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.
Ao darmos à arte o impulso da suprema simplicidade — novidade — somos humanos
e fiéis ao divertimento, impulsivos, vibrantes para crucificar o tédio. Na
encruzilhada das luzes, alertas, atentos, espreitando os anos, dentro da
floresta.
Dadá não significa nada!
_____________________________________________________________
A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque ela está morta; nem
alegre nem triste, nem clara nem escura, deleitar ou maltratar as
individualidades servindo-lhes os doces de auréolas santas ou os suores de uma
corrida ondulante pela atmosfera. Uma obra de arte jamais é bela, por decreto,
objetivamente, para todos. A crítica é portanto inútil, ela só existe
subjetivamente, para cada um, e sem o menor caráter de generalidade.
Não reconhecemos nenhuma teoria. Já estamos fartos das academias cubistas e
futuristas: laboratórios de idéias formais. Pratica-se a arte para ganhar
dinheiro e adular os gentis burgueses? As rimas soam a assonância das moedas, e
a inflexão desliza ao longo da linha do ventre de perfil. Todos os grupos de
artistas foram parar nesse banco, cavalgando diversos cometas. A porta aberta às
possibilidades de se chafurdar nas almofadas e na comida.
DADÁ é o sinal da abstração; a propaganda e os negócios são também elementos
poéticos.
_____________________________________________________________
Precisamos de obras fortes, diretas, precisas e para sempre incompreendidas.
A lógica é uma complicação. A lógica é sempre falsa. Ela puxa os fios das noções
e palavras exteriormente formais para alvos e centros ilusórios. Suas cadeias
matam, miriápode enorme asfixiando a independência. Casada com a lógica, a arte
viveria em incesto, engolindo sua própria cauda, que continua pertencendo ao seu
corpo, fornicando consigo mesma, e o temperamento se tornaria um pesadelo feito
de protestantismo, um monumento, uma massa de intestinos cinzentos e pesados.
Todo produto da aversão suscetível de se tornar uma negação da família é
dadá; protesto com toda a sua força em ação destrutiva: DADÁ; conhecimento de
todos os meios rejeitados até agora pelo sexo pudico do compromisso cômodo e da
polidez: DADÁ; abolição da lógica, dança dos incapazes de criação: DADÁ; de toda
hierarquia e equação social estabelecidas pelos valores por nossos criados:
DADÁ; cada objeto, todos os objetos, os sentimentos e as obscuridades, as
aparições e o choque preciso de linhas paralelas, são meios para o combate:
DADÁ; abolição da memória: DADÁ; abolição da arqueologia: DADÁ; abolição dos
profetas: DADÁ; abolição do futuro: DADÁ; crença absoluta indiscutível em cada
deus produto imediato da espontaneidade: DADÁ; salto elegante e sem preconceito
de uma harmonia para outra esfera; trajetória de uma palavra atirada como um
disco sonoro grito; respeitar todas as individualidades na sua loucura do
momento: séria, temerosa, tímida, ardente, vigorosa, decidida ou entusiasmada;
despojar sua igreja de todos os acessórios inúteis e pesados; cuspir como uma
cascata luminosa o pensamento desagradável ou amoroso, ou acalentá-lo — com a
viva satisfação de que tudo é igual — com a mesma intensidade na moita, livre de
insetos para o sangue bem-nascido, e dourado com corpos de arcanjos, com sua
própria alma. Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ, alarido de dores crispadas,
entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições, dos grotescos, das
inconsequências: A VIDA.
“Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas - empaste de escórias
metálicas, de suores inúteis, de fuligens celestes -, contundidos e enfaixados
os braços, mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens
vivos da terra:
1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa
poesia.
3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o
sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o
salto mortal, a bofetada e o murro.
4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a
beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes
a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre
a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.
5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa
a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.
6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de
aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter
agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento
assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.
8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar
para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o
Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade
onipresente.
9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o
patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se
morre e o desprezo da mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo,
e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou
pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas
capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos
estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis,
devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos
contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que
transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a
vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se
empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o
vôo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e
parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.
Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos
os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. [...]
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável
da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de
todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria
sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. [...]
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do
pensamento que é dinâmico.
O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças
clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas
interiores.[...]
Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não
datado. Não rubricado.
Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a
maquinaria. E os transfusores de sangue. [...]
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
A tarde de um fauno (L'après-midi d'un faune) Stéphane Mallarmé (Écloga
1865-1875)
O fauno:
Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no
duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa
dúvida, sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que
enganado
tomava por triunfo, afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos, fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida
que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor
de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo,
irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta
avena que o som em
chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem
falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por
ascensão.
[...]
[Nota do tradutor, José Lourenço de Oliveira: "relida em 02.1963 e achada
ruim"]