sábado, 31 de maio de 2014

Pontos em destaque na Parte A: Conceito da História da Filosofia

     * Pressupostos (p. 394/340[1]):
  1)  Conceito de Filosofia: “tem a tarefa de captar, pensando e compreendendo, a verdade”, não uma verdade finita e mutável, mas uma verdade absoluta que se expressa na história.
  2) História da Filosofia: deve ocupar-se com a própria filosofia, “[...] a história da filosofia [não] foi excogitada arbitrariamente por indivíduos singulares de maneiras diferentes umas das outras, mas há um nexo essencial no movimento do espírito pensante, onde domina a razão”.

Definição de filosofia:
“A filosofia é a ciência objetiva da verdade, é a ciência da sua necessidade: é conhecer por conceitos, não é opinar nem deduzir uma opinião de outra” (p. 390/336).
Sendo assim:
  1) Filosofia (ideia universal, objetiva) # Opinião (representação subjetiva)
 2) História da Filosofia # Coleção de “opiniões filosóficas” acompanhada da investigação de como se formaram e se desenvolveram
“Uma história assim redigida, que não passe de pura enumeração de opiniões, não constitui senão um objeto de inútil curiosidade ou, quando muito, de investigação erudita, uma vez que a erudição consiste em saber quantidade de coisas inúteis desprovidas de interesse intrínseco, a não ser o interesse de serem conhecidas. Defendemos, por outro lado, que não é destituído de toda utilidade o aplicar-se a conhecer as opiniões e pensamentos alheios, na medida em que este exercício estimula a energia da mente, sugere alguma boa ideia, e do choque das várias opiniões faz nascer uma nova opinião: pois que a ciência consistiria precisamente neste evoluir duma opinião para outra” (p. 390/336).

Considera-se a diversidade de filosofias como prova da impossibilidade da verdade e da própria filosofia. Para Hegel, entretanto, esse modo de pensar é abstrato por contrapor de forma simples verdade e erro. Pois:
a)      as diversas filosofias têm algo em comum: são filosofias
b)      a diversidade de filosofias é necessária e essencial à própria filosofia

*  A filosofia tem como fim a verdade e a verdade encontra-se na ideia. “[...] a ideia... é o pensamento na sua totalidade e na sua determinação em si e por si. A ideia é a verdade e unicamente a verdade; ora, é essencial à natureza da verdade o desenvolver-se e chegar à compreensão de si própria, e só através do desenvolvimento torna-se aquilo que é” (p. 395/341). A filosofia, assim, deve ser compreendida como o desenvolvimento do concreto. Mas o que é “desenvolvimento” e o que é “concreto”?
Desenvolvimento:                       
* Definição: o desenvolvimento se faz na dialética do ser em si (potência, capacidade, disposição) e ser por si (atualidade, ato). “Todo o conhecimento e cultura, a ciência e a própria ação não visam a outro escopo senão a exprimir de si o que é em si, e deste modo a se converter em objeto para si mesmo” (p. 396/342).
Concreto:
* Definição: 1) o concreto é a unidade dos momentos do desenvolvimento (o ser em si e ser por si); 2) o concreto é o em si, aquilo que começa o desenvolvimento; 3) o concreto é o produto final do desenvolvimento. Portanto, o concreto é simples e diverso ao mesmo tempo, e se relaciona aos momentos dialéticos. “Esta interna contradição, que é precisamente o que provoca o desenvolvimento, leva as diferenças à existência” (p. 398/343)

A filosofia não é abstração vazia. Seu conteúdo é abstrato apenas na forma, já que a ideia (seu conteúdo próprio) é essencialmente concreta, pois é a unidade de múltiplas determinações. Para compreender isso é preciso distinguir:
Pensar do intelecto/entendimento = pensar abstrato = não união de uma coisa e o seu diferente (próprio da ciência)
Pensar da razão = pensar concreto = unidade de determinações distintas (própria da filosofia)
Comentário: Para Hegel, a divisão/distinção (operação por excelência do intelecto/entendimento) é algo abstrato, ou se quisermos, artificial, pois a realidade é uma totalidade.  E essa totalidade só pode ser apreendida por uma atividade unificadora da razão que articule algo e o seu contrário.

 * Conclusões retiradas por Hegel:
1)  A história da filosofia, assim como a filosofia, é sistema em desenvolvimento. A filosofia representa a necessidade das determinações da ideia. A história da filosofia mostra esse desenvolvimento da ideia no tempo, i.e., de forma empírica num dado lugar e sob determinadas condições políticas.
2)   A sucessão dos sistemas de filosofia na história é igual à sucessão lógica das determinações conceptuais da ideia, ainda que haja diferenças [Sistema e História se identificam]
3)     O estudo da história da filosofia é estudo da própria filosofia

Observação fundamental: Hegel, ao falar do desenvolvimento da filosofia, fala do ponto de vista do espírito universal e pressupõe uma organização racional do mundo. Cf. os tópicos “O desenvolvimento das várias filosofias no tempo” e “Aplicação das considerações precedentes à história da filosofia”





[1] A primeira numeração refere-se à paginação da do texto de Hegel na coleção Os pensadores do ano 2000, a segunda numeração refere-se à versão em pdf.

Noções básicas de Hegel


segunda-feira, 26 de maio de 2014

HEGEL E O CONCEITO DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA (trecho) - Joaquim de Carvalho



“No pensamento hegeliano, História de Filosofia e Filosofia da História compenetram-se mutuamente e são explicitação do objetivo que visa a compreender a realidade presente mediante a realidade transata. Os acontecimentos históricos, vividos ou pensados, somente adquirem sentido e explicação quando considerados à luz da ideia para que tendem e de que são explicitação, — tal é a concepção fundamental que importa ter presente e que Hegel expôs nas lições de Heidelberga, no ano letivo de 1816-1817, acerca da História da Filosofia e da Filosofia sistemática e cuja estrutura se encontra na Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1.a ed., 1817, Heidelberga) e na lição inaugural da Introdução à História da Filosofia. Na história de um povo, pensava, os acontecimentos e os indivíduos não interessam o historiador-filosófico senão enquanto explicitam o desenvolvimento político desse povo, porque «o que sucede a um povo e tem lugar dentro dele tem o seu significado essencial em relação com o Estado» (Enciclopédia, § 549). Assim, por exemplo, na história de Roma, o que importa é o destino ou a decadência da grandeza do Império Romano, sendo este fim o fundamento dos próprios acontecimentos e a razão da importância do juízo que sobre eles se façam. «Uma história, escreve, sem o dito fim e sem tal juízo seria apenas um abandonar-se idiota à mera imaginação, e nem sequer seria um conto de crianças, pois que as crianças também exigem que as narrações tenham interesse, isto é, um fim que, pelo menos, lhes deixe entrever a relação dos acontecimentos e das ações com esse fim» (Id., ibid.).

Por isso, se o historiador político não pode postergar a ideia de Estado, como o juiz não pode postergar a ideia de Justiça, o historiador-filosófico também não pode postergar as ideias de Estado, de Razão e de Liberdade, que são as ideias para que tende o ser profundo da História e que ao mesmo tempo o explicitam.

A História da Filosofia é a expressão refletida desta concepção. O pensamento não é dado nem se dá imediatamente e de uma só vez, ou por outras palavras mais adequadas, não é mas devém, sendo justamente pela consciência das várias formas, fases e períodos por que passa e se manifesta a sua desenvolução que ele se apreende, conhece e toma consciência mais plena e perfeita de si.

Assim considerado, o pensamento filosófico não é de maneira alguma independente e exterior à marcha da História, mas as suas manifestações, que se apresentam diversas e até antagônicas no decurso das gerações, propõem o problema da respectiva racionalidade, isto é, o problema de saber em que medida as diversas e antagônicas filosofias são racionalmente pensáveis e coerentes no seu advento histórico. Daí, o problema primário e basilar da História da Filosofia, ou seja o do objeto que lhe é próprio, pois é em função deste que se hão-de investigar, relacionar e explicar as manifestações do pensamento filosófico.

Este é um problema que, em geral, os historiadores das diversas ciências particulares não têm que considerar, porque o objeto de cada ciência está mais ou menos particularizado e os progressos dos conhecimentos acerca dele se constituem normalmente por adição sucessiva das contribuições dos diferentes sábios. Para o historiador da Filosofia, pelo contrário, o objeto que ele se propõe historiar constitui um problema urgente e prévio, não só para se orientar como, sobretudo, para afastar do horizonte histórico-filosófico os conceitos que impedem a visão clara e a marcha segura.

A primeira dificuldade que lhe cumpre dissipar é o desconcerto que à primeira vista resulta do espetáculo da sucessão das concepções filosóficas. Todas dizem propor-se e dar a explicação racional da realidade, mas cada uma arvora a própria concepção como a verdadeira Filosofia, por antagônica e polarmente oposta que seja às outras. Daí haver quem seja levado a crer que as diversas manifestações do pensamento filosófico ao longo do tempo não vão além de uma galeria de opiniões dos «heróis da razão», sem conexão de umas com as outras e cujos pensamentos morreram com o passado que os sepultou, perdendo todo e qualquer interesse para o presente. A primeira tarefa do historiador da Filosofia consiste em remover este ponto de vista, que priva a História da Filosofia de objeto consistente e racionalmente pensável. Para se tornar disciplina coerente, a História da Filosofia carece de um objeto que esteja acima e fora da poeirada dispersiva das opiniões de cada um, e esse objeto somente pode encontrar-se na própria ideia da Filosofia. Só ela pode tornar sinfonia a multidão de rapsódias esparsas, distantes e díspares.

Indo à razão de ser de todas as manifestações pretéritas do pensamento filosófico, Hegel pensou que elas não vieram à existência sem causa, e sendo assim não se trata de opiniões contingentes e conjeturais mas de ideias que devem ter entre si conexão racional. O que somos, somo-lo pela História, é tópico da filosofia hegeliana, e consequentemente a razão atual, instruída e consciente dos contrastes das diversas doutrinas e da respectiva superação por concepções mais compreensivas e extensivas, não se produziu nem se constituiu instantaneamente, de uma só vez. Produziu-se ao longo do tempo e desenvolveu-se com a percepção da multiplicidade das suas formas e incidências, à maneira de um rio que se vai tornando mais caudaloso à medida que se afasta da nascente e vai recebendo maior volume de afluentes diversos. Assim considerado, o desenvolvimento do pensamento filosófico não deve ser visto limitadamente, em relação somente a dado país ou região, mas universalmente, isto é, em relação à totalidade do mundo humano. Uma nação pode estacionar, como parece ter acontecido na China, mas o espírito universal não para nem estaciona, porque o seu viver é o seu agir. Por isso, o espírito universal, em cada época, por um lado recebe e assimila a herança científica e filosófica das gerações passadas, e por outro, desenvolve-a acrescentando-lhe algo que lhe faltava. Donde, a produção intelectual ter por característica a presencialidade de um mundo cultural pré-existente, cuja instância é assimilada, acrescentada ou modificada no ato em que o espírito dela se apossa”.


Estruturação do texto da "Introdução à História da Filosofia"

(obs: refere-se à introdução de título homônimo ao do livro, e não à obra como um todo)

Estruturação do texto
1.      Tese: História da Filosofia é a expressão refletida da Razão, isto é, do pensamento racional que penetra na essência das coisas (da natureza, do espírito, do Absoluto). §§ 1-8
1.1.História da Filosofia não é uma sucessão de fatos contingentes, mas a compreensão do seu significado, do seu nexo racional ao longo do progresso histórico, e está representada pela série de espíritos nobres, dos “heróis da razão”. §§ 1-2
1.2.Relação entre a Filosofia e a tradição §§ 3-6
1.2.1 Tudo o que somos, somo-lo por obra histórica: a filosofia (e a ciência) deve a sua constituição à tradição. §§ 3-4
1.2.2. A tradição é algo vivo e em transformação. Herança cuja recepção equivale à própria posse da filosofia. § 5
1.2.3. Compreender a filosofia é recebê-la, desenvolvê-la e elevá-la. A filosofia atual se liga à precedente e é produto desta. § 6
1.2.4. Conclusão: compreender a relação entre filosofia e tradição é perceber que o estudo da história da filosofia já nos inicia na filosofia. § 7
1.3. A História do Pensamento (da Razão) é a história das manifestações da filosofia no decorrer da história. § 8

2. Plano da obra §§ 9-14
2.1. Questões a serem abordadas:
2.1.1. A concepção de História da Filosofia: como conciliar o pensamento (que trata do imutável, do eterno, da verdade) com a história (que lida com o mutável, o contingente, o erro)? Qual o significado, o conceito e o escopo da História da Filosofia? [debatido na Parte A]
2.1.2. O objeto da filosofia e a relação da filosofia com outros saberes: como distinguir o objeto característico da filosofia e sua diferença com relação à ciência, à arte e à religião? Que aspectos da cultura devem ser excluídos de uma História da Filosofia? [debatido na Parte B]
2.1.3. Divisão e critérios da História da Filosofia: Qual a representação geral do quadro histórico da filosofia? Quais suas divisões e momentos necessários? Quais as suas fontes? [debatido na Parte C]

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Conteúdo programático

Leitura e discussão do livro 'Introdução à História da Filosofia', de Hegel. Etapas da atividade:
Dia 12/5: Discurso inaugural; Introdução; Introdução à História da Filosofia
Dia 19/5: Parte A - O conceito da História da Filosofia
Dia 26/5: Parte B - Relação da Filosofia com as outras partes do que se pode saber
Dia 2/6: Parte C - A História da Filosofia: divisão - fontes - critérios no seu tratamento

sábado, 3 de maio de 2014

Nova Edição do Leituras Filosóficas

Curso de Extensão
LEITURAS FILOSÓFICAS:
INTRODUÇÃO À
HISTÓRIA DA FILOSOFIA
(HEGEL)


O curso 'Leituras Filosóficas' tem como objetivo propiciar orientações básicas para uma leitura sistemática de textos filosóficos clássicos e contemporâneos. Nesta sexta edição estudaremos, na íntegra, o livro 'Introdução à História da Filosofia', de Georg W. Friedrich Hegel. Antes de cada reunião é imprescindível leitura prévia dos capítulos indicados.

Cronograma: toda segunda, de 12 de maio a 2 de junho
Horário: 17:30 às 18:45h
Local: Sala 9, ICHS/UFMT
Nº de vagas: 20
Público: comunidade acadêmica da UFMT e demais interessados
Carga horária: 6h
Professor: Rodrigo Marcos de Jesus
Inscrição (gratuita): realizada no primeiro dia do curso (dia 12/5), na sala 9.
Informações: Depto de Filosofia 3615-8479 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

*Ao fim desta postagen encontram-se os links para download e leitura dos manifestos na íntegra e videos das musicas apresentadas no primeiro encontro sobre A Desumanização da Arte de Ortega y Gasset.


ANDRÉ BRETON, MANIFESTO DO SURREALISMO, 1924 (trechos)


Só o que me exalta ainda é uma única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar (como se fosse possível enganar-se mais ainda). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem? 
Fica a loucura. “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade (o que se vê de sua liberdade) não poderia ser ameaçada.[..] Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.
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O pretexto de civilização e de progresso conseguiu banir do espírito tudo que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera; [...] Ao que parece, foi um puro acaso que recentemente trouxe à luz uma parte do mundo intelectual, a meu ver, a mais importante, e da qual se afetava não querer saber. Agradeça-se a isso às descobertas de Freud. Com a fé nestas descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinião, graças à qual o explorador humano poderá levar mais longe suas investigações, pois que autorizado a não ter só em conta as realidades sumárias. Talvez esteja a imaginação a ponto de retomar seus direitos. Se as profundezas de nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo interesse em captá-las, captá-las primeiro, para submetê-las depois, se for o caso, ao controle de nossa razão. Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para o sonho. É inadmissível, com efeito, que esta parte considerável da atividade psíquica não tenha recebido a atenção devida.

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Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a de uma vez por todas. 
SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.




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TRISTAN TZARA, MANIFESTO DADAÍSTA, 1918 (trechos)


Ao darmos à arte o impulso da suprema simplicidade — novidade — somos humanos e fiéis ao divertimento, impulsivos, vibrantes para crucificar o tédio. Na encruzilhada das luzes, alertas, atentos, espreitando os anos, dentro da floresta.
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Dadá não significa nada!
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A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque ela está morta; nem alegre nem triste, nem clara nem escura, deleitar ou maltratar as individualidades servindo-lhes os doces de auréolas santas ou os suores de uma corrida ondulante pela atmosfera. Uma obra de arte jamais é bela, por decreto, objetivamente, para todos. A crítica é portanto inútil, ela só existe subjetivamente, para cada um, e sem o menor caráter de generalidade.
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Não reconhecemos nenhuma teoria. Já estamos fartos das academias cubistas e futuristas: laboratórios de idéias formais. Pratica-se a arte para ganhar dinheiro e adular os gentis burgueses? As rimas soam a assonância das moedas, e a inflexão desliza ao longo da linha do ventre de perfil. Todos os grupos de artistas foram parar nesse banco, cavalgando diversos cometas. A porta aberta às possibilidades de se chafurdar nas almofadas e na comida. 
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DADÁ é o sinal da abstração; a propaganda e os negócios são também elementos poéticos.
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Precisamos de obras fortes, diretas, precisas e para sempre incompreendidas. A lógica é uma complicação. A lógica é sempre falsa. Ela puxa os fios das noções e palavras exteriormente formais para alvos e centros ilusórios. Suas cadeias matam, miriápode enorme asfixiando a independência. Casada com a lógica, a arte viveria em incesto, engolindo sua própria cauda, que continua pertencendo ao seu corpo, fornicando consigo mesma, e o temperamento se tornaria um pesadelo feito de protestantismo, um monumento, uma massa de intestinos cinzentos e pesados.
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Todo produto da aversão suscetível de se tornar uma negação da família é dadá; protesto com toda a sua força em ação destrutiva: DADÁ; conhecimento de todos os meios rejeitados até agora pelo sexo pudico do compromisso cômodo e da polidez: DADÁ; abolição da lógica, dança dos incapazes de criação: DADÁ; de toda hierarquia e equação social estabelecidas pelos valores por nossos criados: DADÁ; cada objeto, todos os objetos, os sentimentos e as obscuridades, as aparições e o choque preciso de linhas paralelas, são meios para o combate: DADÁ; abolição da memória: DADÁ; abolição da arqueologia: DADÁ; abolição dos profetas: DADÁ; abolição do futuro: DADÁ; crença absoluta indiscutível em cada deus produto imediato da espontaneidade: DADÁ; salto elegante e sem preconceito de uma harmonia para outra esfera; trajetória de uma palavra atirada como um disco sonoro grito; respeitar todas as individualidades na sua loucura do momento: séria, temerosa, tímida, ardente, vigorosa, decidida ou entusiasmada; despojar sua igreja de todos os acessórios inúteis e pesados; cuspir como uma cascata luminosa o pensamento desagradável ou amoroso, ou acalentá-lo — com a viva satisfação de que tudo é igual — com a mesma intensidade na moita, livre de insetos para o sangue bem-nascido, e dourado com corpos de arcanjos, com sua própria alma. Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ, alarido de dores crispadas, entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições, dos grotescos, das inconsequências: A VIDA.


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FILIPPO TOMMASO MARINETTI, MANIFESTO FUTURISTA, 1909 (trechos)


“Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas - empaste de escórias metálicas, de suores inúteis, de fuligens celestes -, contundidos e enfaixados os braços, mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:
1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.
3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.
4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.
5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.
6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.
8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.
9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o vôo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.


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MANIFESTO ANTROPÓFAGO  Oswald de Andrade (trechos)

Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. 

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. 

Tupi, or not tupi that is the question. 

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. 

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.  [...]

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa. 

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar. 

Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.  [...]

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico.

O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.[...]

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. 
Sem Napoleão. Sem César. 

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue. [...]


Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.


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A tarde de um fauno (L'après-midi d'un faune) Stéphane Mallarmé (Écloga 1865-1875)

O fauno:

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida, sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava por triunfo, afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.


Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
 Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos, fonte em pranto, da mais
 casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
 se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
 no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em
chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.

[...]


[Nota do tradutor, José Lourenço de Oliveira: "relida em 02.1963 e achada ruim"]

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Manifesto Surrealista:  http://www.culturabrasil.pro.br/zip/breton.pdf
Manifesto Dadaístahttp://marocidental.blogspot.com.br/2012/01/manifestos-literarios-baixe-os.html
Manifesto Futurista: http://marocidental.blogspot.com.br/2012/01/o-manifesto-futurista-de-marinetti.html

Musicas:


Wagner: Tristão e Isolda

Debussy:  1912-L'Après-midi d'un Faune

Stravinsky: Joffrey Ballet 1989 Rite of Spring (1 of 3)